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Leilão de baterias na Austrália: o que o CIS ensina ao Brasil

Austrália abre Rodada 10 do CIS para contratar 4 GW e 16 GWh de armazenamento até 18 de agosto de 2026; veja como piso e teto de receita inspiram o Brasil.

Publicado em · ABSAE

O governo australiano abriu em 23 de junho de 2026 a Rodada 10 do Capacity Investment Scheme (CIS), certame que busca contratar 4 GW e 16 GWh de capacidade limpa despachável no National Electricity Market (NEM). As propostas serão recebidas até 18 de agosto, e a divulgação dos vencedores está prevista, de forma indicativa, para dezembro. Segundo o governo, esta deve ser a última rodada de capacidade despachável do programa, com nova contratação apenas se o volume restante não for preenchido. Para o Brasil, que prepara seu primeiro leilão voltado a baterias, o modelo australiano oferece referências concretas.

Uma política construída ao longo de quase uma década

A rodada atual é o resultado de um caminho iniciado após o apagão de 28 de setembro de 2016 na Austrália do Sul, quando uma tempestade derrubou 33 torres de transmissão, o estado se isolou do restante do NEM e cerca de 850 mil consumidores ficaram sem luz. O episódio evidenciou a necessidade de recursos capazes de responder rápido para sustentar frequência e estabilidade.

Em 2017, a Tesla e a Neoen foram escolhidas para implantar a Hornsdale Power Reserve, que começou com 100 MW e 129 MWh e foi ampliada em 2020 para 150 MW e cerca de 194 MWh. O projeto passou a atuar no mercado de energia, no controle de frequência, na resposta a contingências e em esquemas de proteção, e depois recebeu controles grid-forming com resposta inercial sintética. A lição: um mesmo ativo pode prestar vários serviços, mas só gera valor quando regras e mercado reconhecem essas funções.

O NEM foi sendo ajustado em paralelo: liquidação de preços a cada cinco minutos em 2021, mercado de resposta de frequência em até dois segundos em 2023 e, em 2024, uma categoria de registro que simplificou a participação de baterias e híbridos como carga e geração.

Como funciona o contrato do CIS

O CIS é uma política federal de garantia de receita. A meta atual é viabilizar 40 GW até 2030, sendo 26 GW de nova geração renovável e 14 GW de capacidade despachável. Os principais pontos do desenho são:

  • Piso e teto de receita: o projeto continua vendendo energia e serviços no mercado; se a receita cair abaixo do piso, o governo cobre parte da diferença, e se superar o teto, uma parcela do ganho volta ao governo.
  • Prazo de até 15 anos, contado apenas a partir da entrada em operação.
  • Critérios além do preço: benefício para a confiabilidade, capacidade real de entrega, solidez do proponente e compromissos com comunidades, trabalhadores e povos originários.
  • Processo mais enxuto: desde as Rodadas 5 e 6, propostas técnica e financeira são entregues juntas, com expectativa de reduzir o prazo de cerca de nove para seis meses, além de lista de reserva para substituir projetos que não avancem.

Competição acima do esperado

Na Rodada 8, cujos vencedores foram anunciados um dia após a abertura da Rodada 10, 73 propostas somaram 76,4 GWh para uma meta de 16 GWh. Foram selecionados 15 projetos, todos de armazenamento, com 4,2 GW e 16,1 GWh. Esse apetite dos investidores permitiu ao governo elevar, em julho de 2025, a meta de capacidade despachável de 9 GW para 14 GW, que a Rodada 10 agora busca completar.

O que muda na prática para o mercado brasileiro de BESS

O Brasil já saiu da fase conceitual: a ANEEL regulamentou os sistemas de armazenamento e o LRCAP de 2026, leilão de reserva de capacidade que contrata recursos para garantir o atendimento nos momentos de maior exigência do sistema, coloca o tema na agenda concreta. O desafio é dar continuidade e previsibilidade ao que vier depois do primeiro certame.

  • Desenvolvedores ganham uma referência de contrato que reduz risco de financiamento sem engessar o ativo em receita fixa, argumento útil nas discussões sobre o desenho dos próximos leilões.
  • EPCs devem se preparar para critérios que valorizam a capacidade comprovada de entrega e prazos realistas de implantação.
  • Fabricantes e fornecedores precisam olhar para funcionalidades como controle grid-forming e resposta rápida de frequência, que tendem a ganhar valor à medida que a regulação reconhece esses serviços.

A experiência australiana mostra que regras estáveis, coordenação de acesso e conexão e alocação eficiente de custos são o que transforma a bateria de solução pontual em peça estrutural da expansão e da operação do SIN.

Fonte original: ABSAE — A AUSTRÁLIA ABRE UMA NOVA RODADA PARA BATERIAS

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