A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) colocou em consulta pública a minuta do edital do Leilão de Transmissão nº 01/2027, marcado para 30 de abril de 2027 na sede da B3, em São Paulo. O certame reúne 12 lotes, tem investimento esperado de R$ 12,9 bilhões e traz, pela primeira vez, a contratação de um sistema de armazenamento de energia por baterias no segmento de transmissão. A Consulta Pública nº 032/2026 recebe contribuições de 10 de setembro a 26 de outubro de 2026.
O que está em jogo no leilão
Segundo a agência, o leilão prevê 3.245 km de novas linhas de transmissão e 1.386 MVA de capacidade de transformação, em 13 estados: Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo. Os prazos de obra variam de 36 a 60 meses após a assinatura dos contratos, e a ANEEL estima a criação de 29,5 mil empregos diretos e indiretos.
Depois da consulta, o edital passa por deliberação da diretoria da ANEEL e, se aprovado, segue em dezembro para análise do Tribunal de Contas da União.
Lote 5: o primeiro de baterias na transmissão
O destaque é o Lote 5, no Acre: um sistema de armazenamento em baterias de 100 MW / 200 MWh, com tecnologia grid-forming, conectado ao setor de 69 kV da subestação 230/69 kV Cruzeiro do Sul. O objetivo é dar mais confiabilidade ao atendimento das regiões de Cruzeiro do Sul e Feijó. O prazo de implantação é de 36 meses.
Uma diferença importante: enquanto os demais lotes têm contratos de 30 anos, o Lote 5 terá vigência de 18 anos, em razão da vida útil das baterias.
Os lotes do Nordeste
Quatro lotes envolvem estados nordestinos, com peso especial para Ceará, Bahia e Piauí:
- Lote 9 (CE/RN), 60 meses: duas linhas de 500 kV entre Açu III e a nova subestação Pecém IV, com cerca de 308 km cada circuito, além da ligação Pecém III–Pecém IV e do seccionamento da linha Pecém II–Sobral III.
- Lote 12 (CE/RN), 54 meses: linhas de 500 kV Angicos–Jaguaruana II e Jaguaruana II–Pecém IV, e a nova subestação Angicos. Este lote é condicionado ao Lote 9 e não será apregoado se o Lote 9 não receber proposta válida. Sua permanência depende ainda da confirmação do montante de acessos até 16 de novembro.
- Lote 7 (BA/PI), 42 meses: compensadores síncronos em quatro subestações de 500 kV (Ourolândia II, Gentio do Ouro II, Queimada Nova II e Jussiape), divididos em sublotes independentes.
- Lote 2 (AL), 48 meses: linha de 230 kV Messias–Arapiraca III, com 126,5 km.
Os lotes 9 e 12 foram desenhados para atender cargas eletrointensivas no Nordeste, em articulação com a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST).
Os lotes 6 e 7, de compensação síncrona, terão disputa por metodologia cruzada: cada participante entrega um lance para o lote inteiro e outros para cada sublote, e a ANEEL escolhe a combinação mais econômica.
Por que o lote de baterias importa
Embora o Lote 5 esteja no Acre, ele cria referência regulatória para o uso de baterias como ativo de transmissão, com receita e prazo próprios. A forma como a ANEEL tratar requisitos técnicos, vida útil e remuneração nesse lote tende a servir de parâmetro para futuras aplicações em outras regiões, inclusive no Nordeste.
O que isso significa para quem vai atuar no Nordeste
- EPCs e montadoras de linhas e subestações: os lotes 9 e 12 somam centenas de quilômetros em 500 kV e novas subestações no eixo CE/RN, com prazos de 54 e 60 meses. É demanda para engenharia de campo, fundações, montagem eletromecânica e comissionamento.
- Fornecedores de compensação síncrona e equipamentos de subestação: o Lote 7, na BA/PI, envolve quatro subestações de 500 kV com sublotes independentes, o que pode abrir espaço para arranjos entre empresas de porte diferente.
- Empresas de armazenamento: o Lote 5 é a primeira oportunidade de ver baterias contratadas como transmissão. Acompanhar a consulta e o edital final ajuda a entender exigências de grid-forming e de desempenho ao longo de 18 anos.
- Logística de grande porte: transformadores, reatores e compensadores exigem transporte especial; rotas a partir dos portos da região precisam ser estudadas cedo.
- Propostas: a consulta está aberta até 26 de outubro. Contribuições técnicas bem fundamentadas são um caminho legítimo para influenciar o texto final.
Fonte: ANEEL


