Em artigo publicado em 24 de fevereiro de 2026, Marcelo Rodrigues, vice-presidente de Negócios, Marketing e Inovação da UCB Power, propõe que o Brasil assuma a liderança latino-americana na adoção de baterias residenciais. Inspirado no antigo bordão publicitário da Caloi, o executivo argumenta que o desejo por autonomia energética já chegou às casas brasileiras e que o país, com mais de 3,6 milhões de telhados solares, ainda aproveita pouco o potencial de resiliência e de serviços à rede que o armazenamento distribuído pode oferecer.
Austrália e Reino Unido como referência
O texto usa duas experiências internacionais para mostrar que o modelo já funciona em escala. Na Austrália, uma em cada três residências com geração solar opera com bateria, e o país passou de praticamente nenhum sistema para mais de 250 mil baterias instaladas em 2025. Segundo o autor, o salto veio da combinação de incentivos estaduais, indústria local ativa e eventos climáticos extremos, mas o fator decisivo foi a criação de um mercado que remunera o valor sistêmico. Programas de usinas virtuais (VPPs), como os do governo da Austrália do Sul, reúnem milhares de baterias domésticas para prestar serviços de estabilidade à rede.
No Reino Unido, a inovação foi de modelo de negócio. A Octopus Energy concluiu que a complexidade de operação afastava o consumidor comum tanto quanto o preço do equipamento. Com o Octopus Powerloop, a empresa oferece a bateria como serviço (BaaS): o cliente tem acesso ao equipamento de forma simplificada, enquanto a companhia opera o ativo por software, agrega os sistemas em uma VPP e usa essa capacidade para ajudar no equilíbrio da rede nacional.
O tamanho da oportunidade no Brasil
O artigo cita estudos da ABSolar segundo os quais instalar armazenamento em 20% da base atual de geração distribuída criaria mais de 10 GWh de capacidade espalhada pelo país, comparável a várias hidrelétricas reversíveis, mas com implantação mais rápida e localizada perto do consumo.
Outro ponto destacado é um mercado que costuma ficar fora da conversa sobre solar: os mais de 7 milhões de apartamentos sem espaço para painéis próprios. Para esses moradores, a bateria funcionaria como um kit antiapagão, mantendo iluminação, internet, refrigeração e aparelhos essenciais durante quedas de energia. O autor menciona cidades densas como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza como alvos naturais. Home offices, clínicas, escolas e comércios também aparecem como beneficiários diretos da continuidade de fornecimento.
As frentes que precisam avançar
Para Rodrigues, o obstáculo não é tecnológico, e sim de ecossistema. Ele aponta cinco frentes paralelas:
- Mentalidade: tratar a bateria como infraestrutura do lar, e não como custo adicional do projeto solar.
- Regulação: ANEEL e MME deveriam definir regras para VPPs e agregação de recursos distribuídos, reconhecer formalmente o valor do armazenamento e criar um processo de conexão e homologação padronizado, digital e rápido.
- Experiência do usuário: sistemas plug-and-play com aplicativos que mostrem autonomia, tempo de backup e contribuição para a rede.
- Modelos de negócio: assinaturas, financiamento verde de longo prazo e divisão de receitas via VPPs.
- Cadeia de valor: instaladores e integradores capacitados para vender valor e oferecer pós-venda.
O que muda na prática para o setor de BESS
O artigo não anuncia uma norma nova, mas organiza uma agenda que deve pautar a discussão regulatória. Para fabricantes e fornecedores, o recado é que existe um mercado residencial potencialmente grande, mas cuja captura depende de regras para agregação e de homologação simplificada. Enquanto a ANEEL não tratar das usinas virtuais, a receita de serviços à rede segue fora do alcance, e o argumento de venda fica restrito à resiliência e ao backup.
Para desenvolvedores e EPCs, ganha força a ideia de que armazenamento não se limita a grandes plantas: projetos distribuídos, condomínios e pequenos negócios podem compor carteiras agregáveis no futuro. Isso exige pensar desde já em equipamentos com comunicação e controle remoto compatíveis com operação em VPP.
Por fim, integradores e instaladores precisam se preparar para modelos como assinatura e bateria como serviço, que deslocam o foco da venda do equipamento para a gestão do ativo ao longo do tempo. Quem acompanhar de perto a evolução regulatória e estruturar essas competências tende a sair na frente quando as regras forem definidas.
Fonte original: ABSAE — “Eu quero minha bateria”: a virada estratégica do setor elétrico