A Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE) publicou em 1º de outubro de 2026 uma resposta a representantes do segmento termelétrico que questionam a entrada das baterias nos Leilões de Reserva de Capacidade (LRCAP). O debate surgiu depois que o Ministério de Minas e Energia divulgou o cronograma de leilões até 2029 e abriu espaço para que sistemas de armazenamento, em baterias ou em usinas reversíveis, disputem contratos ao lado das fontes de geração. Para a associação, as críticas sobre estabilidade e corrente de curto-circuito não se sustentam diante das regras técnicas já definidas pelo ONS e pela EPE.
O que as térmicas questionam e o que a regra exige
Os críticos afirmam que baterias químicas não ajudam a manter tensão e frequência estáveis e que têm forte limitação de corrente de curto-circuito. A ABSAE lembra que a Portaria Normativa MME nº 136/2026, que orienta os leilões de baterias de dezembro, obriga os projetos a usar inversores grid forming, conforme a nota técnica conjunta NT-ONS DPL 0111/2025 / EPE-DEE-NT-095/2025.
Diferentemente do inversor convencional, que apenas acompanha a rede e injeta corrente, o formador de rede cria sua própria referência de tensão e frequência e se comporta de modo parecido com um gerador síncrono. Pode ainda operar como gerador síncrono virtual (VSG), reproduzindo por controle a inércia das máquinas girantes. Entre os requisitos da nota técnica estão:
- resposta a saltos de fase e variações de tensão no ponto de conexão em até 16 ms;
- reação de frequência em até 200 ms e resposta completa em até 1 s, com participação na regulação primária;
- inércia sintética e estatismos Q-V e P-f com parâmetros ajustáveis pelo ONS;
- controle contínuo de tensão e capacidade de gerar e absorver potência reativa;
- comportamento passivo de impedância entre 0,1 Hz e 120 Hz, sem criar ou piorar oscilações;
- operação estável em ilhamento e opção de partida autônoma (black start).
Curto-circuito é questão local, e o leilão já trata disso
Sobre o nível de curto-circuito, a associação argumenta que a contribuição de qualquer usina se restringe à vizinhança elétrica e depende de topologia, fontes próximas, disjuntores e proteções, aspectos que o ONS avalia barramento a barramento. Como ocupam pouco espaço e são modulares, as baterias podem ser instaladas junto a subestações existentes, onde a rede precisa de reforço. O próprio LRCAP prevê uma bonificação locacional baseada no indicador MISCR (relação de curto-circuito com múltiplas injeções), que favorece projetos grid forming em pontos de rede fraca.
Referências internacionais citadas
A ABSAE menciona que o Reino Unido foi pioneiro ao incluir a capacidade formadora de rede no código de rede, e que o operador NESO contrata inércia e corrente de curto-circuito de baterias e renováveis. Na Austrália, cerca de 74% dos projetos de baterias na fila de conexão já preveem inversores grid forming, e a Transgrid selecionou até 2 GW desses sistemas, efeito comparado ao de 17 compensadores síncronos. Na Califórnia, a geração a gás caiu 60% nos cinco primeiros meses de 2026 frente a 2024, enquanto a capacidade de baterias cresceu 79%, para 16 GW. No Texas, em 22 de julho, as baterias descarregaram cerca de 12 GW no recorde de demanda.
O que muda na prática para quem desenvolve BESS
A defesa da ABSAE reforça que, no Brasil, a disputa no LRCAP será técnica e baseada em atributos. Para quem atua na cadeia de armazenamento, isso se traduz em pontos concretos:
- Desenvolvedores devem priorizar áreas próximas a subestações com rede fraca, onde o MISCR pode render bonificação locacional.
- Fabricantes e fornecedores de inversores precisam comprovar desempenho grid forming dentro dos tempos e funções exigidos pela nota técnica ONS/EPE.
- EPCs terão de integrar controles, proteções e estudos de conexão compatíveis com esses requisitos desde o projeto básico.
- Todos devem acompanhar a avaliação de necessidade sistêmica que EPE e ONS apresentam até 30 de abril de cada ano, pois é ela que definirá os atributos de cada leilão anual.
A associação sustenta que, para necessidades de potência de até cerca de quatro horas, as baterias já são a opção mais econômica, o que tende a tornar a competição entre tecnologias mais intensa nos próximos certames.
Fonte original: ABSAE — Um portfólio de potência mais seguro e eficiente passa pelos Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias